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Um pouco sobre mim e a Índia

Enquanto a juventude de hoje em dia procura profissões ‘espiritualizantes’ para comercializar e por esse motivo vão para a Índia, meu caminho foi um pouco diferente. Uma amiga queria ir pra lá em 1997 e me convidou para ser sua companhia.  Nunca havia pensado nesse país como destino turístico, afinal de contas nunca ouvimos coisas muito positivas de lá por aqui. Mas achei que poderia ser uma aventura interessante,  exótica, diferente e, como artista plástica, poderia ser enriquecedor e inspirador. Em 1997 não tínhamos como saber muito sobre a Índia, a não ser em um raro programa de tv.

 

Mala feita, guia para mochileiros na mão (em inglês porque não havia clientes sufucientes pra uma versão em português ainda) e fomos.

Precisou de 1 segundo para eu sair pela porta do aeroporto e tomar o maior susto da minha vida. Cor, cheiro, barulho, gente, muita gente. Olhares penetrantes, fixos em mim, como uma criatura exótica. Que ideia foi essa? - perguntei pra minha amiga.  

Quem já foi pra Índia, principalmente há mais de 20 anos, sabe do que estou falando. Sem grupo, sem excursão, sem ônibus fretado com cortininha na janela. Na coragem mesmo e na vontade de ampliar as fronteiras do nosso limitado conhecimento.

 

Precisou de pouco tempo pra eu perceber que aquele lugar não era ordinário. Nada acontecia do jeito que eu esperava, nada era convencional, tudo me surpreendia. Algo na expressão daquelas pessoas transbordava sinceridade, transparência, realidade.  Sempre fui inconformada com o senso comum, com os valores da sociedade ocidental e, observadora e questionadora que sou, pensei: como eles escolhem viver assim? Nada parecia encaixar no modelo que fui ensinada durante toda a minha vida até então. Eu ainda achava que poderia ensiná-los alguma coisa. Por que não fazem isso? Por que não fazem aquilo? Mal sabia eu o quanto teria para aprender.

Foi bem inesperado meu encontro com o conhecimento. 

E ano após ano eu voltei para lá porque minha mente só pensava que precisava entender cada vez mais aquilo tudo, e trabalhando, voltando e perguntando acabei adotada espiritualmente por uma maravilhosa familia e assim me tornei parte deles. E como eles eu aprendi, vivendo na prática os rituais, as mortes, os casamentos, os relacionamentos, porque é a isso que se resume a vida, a viver.


E eu estudei, sem ter um objetivo, só minha curiosidade e busca. Foi uma trajetória pessoal, individual, que eu sempre escondi porque despertava preconceitos e questionamentos que eu ainda não tinha entendido e porque a espiritualidade é um acontecimento interno e não sente necessidade de ser compartilhado. É o esvaziamento do que se pensa que sabe sobre a vida e esvaziar não precisa ser mostrado, só o encher que precisa.
Ganhou? Mostra. Perdeu? Não mostra. Não é assim que é "Prakriti", a natureza? 


Mas as pessoas continuavam perguntando e eu continuei buscando e a cada ano tinha mais clareza, discernimento e respostas. Primeiramente sob a demanda dos conhecidos, depois de conhecidos de conhecidos, depois de desconhecidos, alunos, clientes. Então eu percebi que tinha realmente boas respostas sobre as questões mais diversas da mente humana. E as escrituras, os ensinamentos cotidianos, as experiências vividas, a descoberta da minha natureza real me dão uma fundação sólida para ensinar e orientar as pessoas.

 

Eu e a Astrologia Védica (Jyotish) 


Depois de alguns anos minha família achou que eu poderia aprender o Jyotish. Meu irmão, um sacerdote brâmane de uma cidade de peregrinação hindu fez minha Carta Natal e viu que ela permitia que eu estudasse os textos. Ninguem na Índia aprende uma lição espiritual se não puder ajudar os outros com ela. É sobre o dharma. É sobre passar adiante o conhecimento. Não é uma profissão de escolha, é sobre ser um veículo para o crescimento de todos.

 

Sempre fui cética e duvidei, como até hoje duvido, de algo que não possa ser experimentado por mim mesma. Eu pensava lá atrás, como muita gente pensa: como as pessoas podem ser divididas em 12 signos e a previsão de um mesmo horóscopo servir pra tanta gente diferente?

 

Logo entendi que isso era só mais uma das crenças cegas que nossa sociedade ocidental aceitou e fui tranquilizada quando entendi que o Jyotish era muito mais matemático do que psicológico. E assim, mais uma vez eles me surpreenderam, porque estava tudo lá, na capacidade de leitura de 9 letras em 12 casas, uma vida inteira para ser desvendada. 


E eu mergulhei em mais essa fase do aprender e ela foi a ferramenta que as pessoas tinham para vir entender quem elas são de acordo com as escrituras védicas, para os valores hindus, para as condutas do hinduísmo. 

Porque isso é o Phaladesh, a leitura da carta de navegar pelos mares da vida. Porque a vida não é uma estrada de ferro de linha única, é um mar aberto aonde cada sensação muda a direção. E como dizem os mestres: é melhor navegar consciente das tempestades à frente, mesmo que elas possam mudar de rumo. E essa é a virtude da leitura verdadeira, as tendencias dos mares à sua frente e as melhores direções para sobreviver às tempestades, sempre passageiras como você, passageiro da vida. 

Não existe formação para mestre Jyotish, porque esse conhecimento pressupõe todo conhecimento anterior a isso, como na astrologia grega tropical, em que é preciso conhecer antes os mitos e suas formas. Como seria possível falar de ShukraCharya, que é o planeta Vênus, sem conhecer toda a sua história? A Astrologia Vedica sobreviveu mais de 5 mil anos sem certificados, associações, entidades de classe ou sindicatos. A tradição é oral e precisa de vivência, então por favor, não seja mais uma pessoa que acha que isso é o que vale. Não é medicina, não é direito, não é graduação. É prova viva, experiência, conduta, respeito e reconhecimento dos verdadeiros mestres dessa tradição.


Primeiro é preciso dominar o conhecimento para depois aprender Jyotish e isso só acontece pela tradição oral. De mestre para aluno. Ao vivo. A palavra é Upanishad, que não pode ser somente lido, mas tem que ser aprendido como a própria palavra determina: upa - sentado, nishad - junto ao mestre. 


E estar sentada junto aos mestres me permitiu que o conhecimento fosse construído, e mesmo depois de mais de duas décadas, eles ainda me ensinam, me corrigem, me informam e me respondem, sem jamais parar de me surpreender, o que é maravilhoso, porque a leitura da sua Carta Natal tem que trazer algo tão inesperado quando chegar na Índia, ou mais, porque é sobre a sua pessoa, aos olhos dos Vedas. É sobre o que os Vedas pensam, esperam e desejam de uma pessoa como você. Isso só pode ser extraordinário e fora do padrão, como a Índia é para nós.

E no final das contas, muitas pessoas podem nos apontar a direção, mas o caminho somos nós que percorremos.

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